RESENHA: Okja

Esqueça todos os filmes da Netflix que você já assistiu, temos uma mudança de qualidade que é literalmente de peso. Estamos falando de Okja, a mais nova produção que foi aclamada em Cannes. Mas se prepare, se você é um desses que não aguenta ver vídeos de abatedouros, não assista ou finja ser um desses cegos que não percebe que Okja não é sobre um porco gigante e sim sobre a exploração alimentícia que maltrata os animais da forma mais indigna possível.

Vamos combinar: a Netflix sempre produziu séries ótimas e inovadoras, mas seus filmes (Beast of No Nation e alguns outros fogem dessa regra) se comparavam aos vilões dos filmes da Marvel: esquecíveis, inexpressíveis e bem longe do que prometia. Dava para ver por diversão, passatempo e tudo mais, mas você sabia que não ia além disso, porém, quando começamos a ouvir falar de Okja, já dava para notar o que vinha por aí. Afinal, estávamos falando de um filme com Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Giancarlo Esposito, Lily Collins e uma nova estrela mirim incrivelmente boa: Seo-Hyun Ahn.

Seo-Hyun não vai te fazer enlouquecer, mas ela traz o essencial como atriz: consegue passar seus sentimentos para o público e o faz migrar diretamente para o seu posicionamento na história, quer dizer, ela se expressa tão bem que sentimos amor por Okja e queremos que ela ganhe todas as lutas possíveis. Até porque Tilda interpreta de forma excelente a “vilã” do filme, que na verdade não é uma vilã e sim uma representação de todos os donos das empresas alimentícias que exploram os animais de formas horríveis, mas vendem uma imagem de uma vaquinha feliz na embalagem. O pior é que nós compramos.

Okja começa de uma forma muito simples, harmoniosa, chegando a lembrar diversos desenhos orientais que vemos por aí (apesar de se passar na Coréia), mas já vamos percebendo que Mija tem um temperamento forte, sabe bem o que quer e como resolver tudo e apesar da sua pouca idade, muitas vezes se demonstra mais inteligente que o seu avô. Já do outro lado do mundo temos Lucy, uma mulher insegura que chega aos negócios da família para dar uma nova cara para a empresa, de forma que ela pareça sustentável e bonita aos olhos do consumidor. Esse equilíbrio irônico não vem atoa: enquanto a menina que não tem nada além de um avô e um porco é bem determinado, a rica e dona de uma grande empresa é super insegura por causa de seu pai e sua outra irmã.

Já Dr. Johnny (Jake Gylenhaal) está bem caricato, mas é claramente proposital, como qualquer apresentador que você vê por aí no Discovery da vida, cheio de amor aos animais em frente a tela, mas um vendido pelo sistema por trás das câmeras. Para matar a saudades de Breaking Bad, temos o incrível Giancarlo, que interpreta Frank, uma espécie de equilíbrio na família de Lucy e Nancy.

A trama é alucinante, todos os momentos são necessários no seu exato tempo: precisamos de um ritmo mais leve quando mostramos a vida no campo e tudo soa frenético e rápido demais quando Mija vai para a cidade grande, justamente para mostrar a maluquice que vivemos diariamente, quando marcas jogam coisas na nossa cara e compramos pelas suas mensagens de preservação, mesmo sabendo que muitas vezes é puro marketing. O mais interessante é que o diretor do filme, Joon-Ho Bong, não crítica o consumo alimentício de animais, mas sim como isso é produzido e como essa exploração capitalista expõe os pobre animais a momentos muito parecidos com uma tortura em uma ditadura militar.

Sobre um ótimo disfarce, daqueles de lobo em pele de cordeiro, Okja chama atenção pela fofura, mas tem uma profundidade densa, dolorida e dá um pouco de nojo de ser um humano. É doloroso quando o filme termina, mas ao mesmo tempo você tem noção de quanto é necessário sabermos e lutarmos contra esse tipo de exploração, buscando alternativas ou pesquisas para melhorarmos esse mundo tão cruel.

Tem cena pós-créditos!

 

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