RESENHA – Malasartes e o Duelo com a Morte

Pedro Malasartes é um personagem muito antigo, conhecido em contos tradicionais da Península Ibérica, sendo mencionado em cantigas datadas do século XII, XIV. Algumas variações do seu personagem são conhecidos até pela Europa. Mas com todo o seu jeitinho de enganar e passar a perna, Malasartes é claramente um brasileiro. Malasartes e o Duelo com a Morte resgata a nossa cultura, trazendo muita diversão e fugindo um pouco das comédias nacionais que estamos vendo nos últimos anos, daquelas com o Leandro Hassun fazendo piadas sem graça e preconceituosas (ele está nesse filme também, mas aqui ele é engraçado, eu juro).

Malasartes foi vivido no cinema pela primeira vez em 1960 por ninguém menos que Mazzaropi, que claramente deve ter se inspirado no personagem para criar o seu ícone do cinema nacional, o caipira enganador. Justamente por causa do Mazzaropi, esse tipo de filme foi esquecido e até hostilizado com o tempo, principalmente pela onda de buscar um cinema mais americanizado nas comédias. Mesmo que tenhamos visto isso em o Auto da Compadecida, poucas vezes vimos filmes atuais com essa mesma pegada e temática e você pode até fingir que não, mas filmes como esses, apesar de óbvios, são sempre divertidos.

Os atores Jesuita Barbosa e Ísis Valverde  conseguem, acima de tudo, deixar o público a vontade. São extremamente carismáticos e conseguem desenvolver um relacionamento que faz quem está assistindo vibrar para o casal ficar junto, tal como as senhorinhas fazem com as novelas nacionais. Eles conseguem passar algo muito difícil em uma atuação, eles são espertos, mas ao mesmo tempo são ingênuos e de bom coração. Por isso o personagem Zé Cadinho (vivido pelo Augusto Madeira) está lá, para mostrar o lado humano de Malasartes, que mesmo enganando Zé Cadinho, ele é perdoado pelo mesmo e começa a criar um vinculo bonito entre os dois.

Já a morte, vivida por Júlio Andrade, como uma boa morte é sedutor, malvado, mas com uma boa desculpa para estar tentando enganar todos ali: o tédio em ser a morte. E ele (ou ela) acaba nem sendo o antagonista da história vendo que como vilão, Próspero (Milhem Cortaz) é mais malvado e acima de tudo, idiota. Esse talvez seja o problema, pois o ator Milhem por si só (e por viver vários vilões no cinema e em novelas) acaba sendo muito mais ameaçador do que quando olhamos para o personagem de Júlio, pois apesar de ser a Morte, cheia de poderes e misticismos, ele em nenhuma hora usa de uma forma muito ameaçadora. Você sabe que o vilão vai perder só pelo jeito que o personagem principal age e engana as pessoas com facilidade.

O primeiro ato do filme é excelente, tem uma boa introdução, é engraçado, apresenta bem os personagens e é bem dinâmico. Já o segundo ato, talvez seja corrido demais, sem muitas explicações e parece ter sido extremamente editado para diminuir o tempo do filme, por isso acaba ficando com uns buracos, mas por outro lado tem momentos surpreendentes, fugindo da previsibilidade. Pena que o seu ato final dá uma estragada, porque os dois primeiros construíram um misticismo tão bom e preparam tanto esse momento final que quando realmente vai acontecer, fica parado, não acontece nada e todas as dificuldades que o personagem principal viveu por causa desse momento, não servirão para nada.

Outro ponto triste é o pouco aproveitamento do talento de Vera Holtz e Leandro Hassum, dois atores que se bem dirigidos são ótimos e carismáticos, mas no filme ficam bem de canto e por causa do final fraco, se tornam mais dispensáveis ainda. Principalmente Vera, que vive a personagem A Cortadeira, famosa em mitologias gregas como a mulher que corta o fio da vida, mas aqui fica pouco tempo em tela e não parece ameaçadora como deveria ser.

Mas ao todo, Malasartes e o Duelo com a Morte é um filme super divertido, resgata pontos saudosistas que marcaram o começo do cinema nacional e acima de tudo, emociona. Além disso, tem efeitos especiais bem bacanas que o público brasileiro não está acostumado a ver em filmes feitos aqui. Vale muito a pena assistir e prestigiar o nosso tão sofrido, amado, idolatrado e único cinema nacional.

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