RESENHA – BoJack Horseman (Temporada 4)

“Isso quer dizer tanta coisa, mas na verdade não quer dizer nada.” – Figurante da quarta temporada de BoJack Horseman.

Finalmente chegou a tão esperada quarta temporada da animação adulta BoJack Horseman e cada segundo ansioso de espera valeu muito a pena. Voltamos a acompanhar a depressiva vida de BoJack, que ainda tenta consertar os seus erros e ao mesmo tempo assume sua desistência. O que nos faz gostar tanto de BoJack é que acima de tudo ele é muito humano, seus erros são normais e muito parecidos com os que são cometidos diariamente por nós, claro que com uma pequena dose de nonsense.

De todas as temporadas que passaram, essa com certeza ganha no peso emocional. É uma verdadeira bomba relógio de tensão e lágrimas, você sente desde o primeiro episódio que todos os personagens estão prontos para explodir, pois estão aguentando diversas tensões que a vida social os põe para segurar. Essa tensão, que antes era quase que exclusiva de BoJack, diminui bastante nele, pois sentimos que ele mesmo já explodiu, mas passou diretamente para Diane e Princesa Caroline, que vivem mais tensas que Jack Bauer em 24 horas.

A maior coisa da série são as suas críticas sutis da nossa realidade. Essas vão desde a idiotice que a geração Y vive em seus escritórios super “diferenciados”, cheios de artigos bonitos, animais fofinhos, yoga e todas as excentricidades possíveis, para esbanjar um lugar diferenciado, que na verdade é a mesma coisa exploratória de sempre. Toca muito sutilmente no conteúdo consumido e produzido por sites como o Buzzfeed e a loucura de relevar tanto listas, pesquisas e como isso atinge tanto as pessoas.

O que dói muito  se identificar são as criticas feitas para a nossa interação social, como somos por dentro e como nos auto sabotamos diariamente. Se você tem indícios de depressão ou sabe desses problemas sociais, a dor cresce mais ainda, pois BoJack vive cada vez mais criticando a si mesmo e as situações vazias e ridículas que os famosos vivem. Não só BoJack, mas Todd também, que apesar de burro, discute a sua falta de interesse em sexo, os relacionamentos de mentira dos famosos e os bastidores podres que consumimos tanto.

Em um ano tão quente e polarizado, era impossível não tocar no assunto política. O fato de usarem o Senhor Peanutbutter, um personagem ingênuo e pouco favorecido de inteligência, ajuda nas criticas ácidas para a frágil democracia e as leis antiquadas que correm o risco de romper a linha tênue da realidade com sugestões de leis absurdas que povoam a internet. Como manobrar a massa é outra forma inteligente de usar o personagem, pois nos momentos que ele menos sabe o que está fazendo, é quando mais o público diz que sua intenção de voto seria do mesmo. É ridículo e beira o absurdo, mas é tão real quanto o presidente dos EUA ficar discutindo no Twitter, uma piada que se não fosse real, cairia como uma luva para a série.

Aproximar a família de BoJack gerou um dos melhores artifícios da história para contar um pouco mais dele e também ajudá-lo a limpar sua bagunça. É na zona de roupa suja familiar, que o senhor Horseman consegue se posicionar e dizer onde quer chegar, criando esperanças de melhora na sua profunda solidão e depressão. São episódios tristes, mas necessários, principalmente os que tocam no assunto maternidade, um machucado muito profundo do BoJack, mas é na resolução que vemos o primeiro passo do personagem. É tocante e prepare os lencinhos.

Prepare os lencinhos também para o arco da Princesa Caroline, com episódios tão profundos como os de Bojack. Ela tem um em especial que lembra muito outro da série How I Met Your Mother, o episódio Symphony of Illumination (E12S07), em que mostra o lado mais humano da personagem e os dramas de talvez nunca constituir uma família.

Todo esse drama enrustido e ao mesmo tempo totalmente pronto para explodir, gera uma aproximação muito grande entre nós e a série, pois mesmo que se tente esconder isso, todos nós passamos pelos mesmos momentos dramáticos que a maioria ali. Por isso que BoJack é uma das melhores animações adultas atuais e utiliza o nonsense de forma perfeita, para esconder assuntos tão pesados e que evitamos discutir.

A temporada tem apenas 12 episódios, o que é bom, pois consegue fluir muito bem, sempre em um ritmo ágil que quando você nota, já se foi uma temporada inteira. Mas também é triste, já que se torna tão viciante que enlouquecemos ao lembrar que temos de esperar mais um ano. De qualquer forma, essa é a temporada mais dramática, densa e ao mesmo tempo é a melhor construída até agora, esperamos que só melhore.

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