Blade Runner 2049: Andróides ainda sonham com ovelhas elétricas (e sonham muito bem!)

Atenção: Por ser um filme muito especial e por ter 2h40 de duração, o texto abaixo é um pouquinho mais longo que o normal, mas vale a pena! Fique até o final e receba uma deliciosa surpresa. 

Depois de tanto tempo e sem nenhuma necessidade, uma pergunta pairava no ar: precisamos de mais um Blade Runner? Depois de tanto tempo? Com aquele final fechadinho? Bom, a verdade é que não precisávamos, principalmente pelo filme que hoje é considerado clássico, ser um dos primeiros filmes americanos a popularizar o estilo Cyberpunk, o futuro distópico sem esperanças. Mas, foi por não precisarmos que tivemos a sorte de ganhar uma das melhores sequências do cinema. Quase que único e sem exagero, o filme é um dos poucas que foge de algo muito “comercial”, não tem um roteiro inchado e o melhor de tudo: se torna tão especial quanto o seu primeiro.

Calma haters. Não to dizendo que é tão bom quanto o primeiro e… pera… na verdade eu estou dizendo sim, o filme mantém a mesma qualidade e se torna tão bom quanto. Porém, é bem capaz que você não sinta isso com toda a intensidade de quando viu Blade Runner pela primeira vez, afinal, estamos em 2017 e efeitos especiais como são apresentados não são nenhuma novidade. Logo, o impacto visual não é tão chocante, porém, o cuidado com a fotografia, as cores e tudo mais, ainda é extremamente impactante. Por isso: veja em uma tela grande.

Depois de três curtas (1 23), previamente lançados algumas semanas antes de sua estréia, ERA de se esperar que o filme tocasse em assuntos do passado, sem extrapolar e se tornar nostálgico demais. Mas, para a nossa surpresa (Quando digo nossa, quero dizer eu) se pode dizer que o filme só trabalha com essa nostalgia, ele traz histórias novas sim, mas a real é que ninguém quer saber muito. Nós compramos muito mais esses enredos e personagens conhecidos do que tentar entender quais são as tais motivações do personagem do Jared Leto, que apesar de pouco tempo em tela, está excelente e esse pouco tempo até nos traz uma ideia de que o personagem ainda é poderoso demais, quase que intocável.

 

Talvez por isso eu consigo ver o filme como dividido em duas partes: o primeiro ato que tenta explorar e mostrar o que está acontecendo nessa realidade distópica de 2049, procurando mostrar as tecnologias, os humanos, os preconceitos e a solidão humana. E o segundo ato que trabalha 100% com o que conhecemos e desenrola muitos assuntos do passado, mas sem estragar AQUELE assunto que na realidade nunca quisermos saber. Na verdade, o filme ganhou três vezes mais pontos por não desenvolver aquele assunto do passando de um certo personagem aí (se você viu Blade Runner, sabe o que eu to falando).  Mais uma vez, não que uma parte seja melhor que a outra, é necessário mostrar o mundo “atual” do filme para poder trazer todos os problemas que estão jogados embaixo do tapete. Se tudo já fosse apresentado de cara, provavelmente não seria a mesma coisa.

Aliás, o filme não seria a mesma coisa sem Ryan Gosling, que faz o mesmo papel de Ryan quietão e misterioso de sempre, o que não é ruim. Então foi uma sábia escolha. Talvez um outro ator tivesse que se esforçar bem mais para ser como Ryan já é naturalmente (pois é bem provável que comendo torradas no café da manhã, ele ainda tenha esse semblante de quem quer dizer: “estou guardando um segredo”). Seu personagem, o Policial K. (uma provável homenagem ao autor do livro o qual Blade Runner foi baseado, o “Andróides sonham com ovelhas elétricas?”, de Phillip K. Dick). Mas, com TODA a certeza do mundo (e até me surpreendo por estar falando isso), o filme não teria 90% do peso dramático se Harrison Ford não tivesse aceitado voltar a viver o detetive Deckard.

Há muita tensão no personagem que parece não ter se resolvido nesses últimos 30 anos. Pelo contrário, Deckard está mais emocionalmente afetado, lida com as consequências de um passado conturbado e o peso que Ford coloca no personagem é sentido com tanta facilidade que a surpresa vem justamente daí: Ford expressivo. Parece que ele realmente tem um carinho grande pelo personagem, aliás, como a Academia também ama a nostalgia, eu não me admiraria se ele fosse indicado ao Oscar do ano que vem.

Denis Villeneuve fez algo inacreditável aqui. No quesito direção, ele já parecia estar se preparando para fazer este filme quando fez “A Chegada” e “Sicario”, pois por mais que sejam filmes diferentes, sentimos fortes elementos de ambos em sua fotografia, no seu método de fazer a mesma se comunicar com os olhos do telespectador, da tensão presente no filme. Porém, o seu ato inacreditável não se limita a sua direção, mas sim ao seu poder sobre o controle do filme, de ter conseguido ter feito a famosa “versão do diretor” ido diretamente para o cinema e não em um bônus do DVD. Não existe nenhum momento do filme que você olha e pensa: puts, colocaram isso para vender. Não estamos falando de um filme muito comercial aqui e é bem possível que muitos telespectadores se decepcionem indo ao cinema por estarem esperando algum filme mais movimentado ou de ação.

O grande primeiro impacto que senti assistindo ao filme clássico foi a sua trilha sonora, composta por Vangelis. Então, por ter esse forte impacto, digo que o que mais me decepcionou foi a falta de uma trilha forte o bastante para escutar em algum lugar aleatório e rapidamente me lembrar do filme. Porém, entendo a escolha de Hans Zimmer. Ele usou a famosa tática “Em time que ta ganhando, não se meche”, assim optando por trazer características suas, mas sem abandonar 100% aspectos da trilha clássica.

Blade Runner 2049 é uma verdadeira obra de arte para o cinema atual que anda inchado com sequências desnecessárias e uma obra de arte para o gênero de ficção científica moderna. É difícil saber se daqui há 30 anos vamos estar falando dele, mas é bem possível que ele tenha seu espacinho especial na história do cinema, o que já é um verdadeiro ponto para qualquer diretor, elenco ou história.

Uma última observação: se você gostou muito da sequência e também gosta do primeiro filme, procure conhecer o livro que o filme se baseou (já citado acima, “Andróides sonham com ovelhas elétricas?”), é muito interessante ver o como o novo filme resgatou muita coisa do livro, ou seja, fez a lição de casa direitinho.

A surpresa:
Um sorriso desses, bicho. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *