Big Mouth é uma animação incrivelmente necessária

A tal da puberdade ataca todos nós e ao menos que você já tenha nascido com 30 anos, é provável que você tenha fotos, vídeos e momentos na sua memória que você tem vontade de voltar no tempo e matar a si mesmo no auge das suas indecisões, espinhas e descobertas sexuais. Quando esses problemas são mostrados em animações, filmes e séries de televisão, tudo acaba ficando bem distante da nossa realidade, o que nos faz crer que na maioria das vezes, a gente é que está errado em passar por todos esses problemas, mas sabemos que não. Por isso, apesar de passar a impressão de ser mais uma daquelas animações adultas que só se focam em falar muitas besteiras e não passar nada, Big Mouth funciona justamente como oposto. Brincando com o lado mais sujo, perturbado e engraçado da maldita adolescência, mas ao mesmo tempo ensinando.

Criado por Nick Kroll, Andrew Goldberg, Jennifer Flackett, Mark Levin, a trama conta a história de Nick e seus amigos, que estão no rito de passagem da infância para a adolescência e que estão passando por diversas mudanças físicas, tendo de lidar com essas confusões enquanto aguentam familiares problemáticos e monstros da puberdade. Sim, é isso mesmo, apesar de tentar ser uma animação mais “pé no chão”, ele é sábio em usar o lírico para falar um pouco mais dessas mudanças hormonais utilizando o monstro da puberdade. Afinal, como mostrar essa mudança tão extrema no nosso corpo sem beirar o clichê? Esse monstro funciona mais ou menos como nossos pensamentos perturbadores que passam pela cabeça durante essa época.

Em tempos de tabu sobre a sexualidade dos jovens, a série é precisa para dois públicos: para os mais velhos, que já passaram dessa época há um tempo e que podem enxergar como era e é ridícula essa preocupação com o nosso corpo. E para os mais novos, que estão passando por isso no momento, acaba sendo uma das melhores opções, que acima de tudo gera a fácil identificação sem ser chato ou ser masculinizado demais, pois há um grande espaço para explorar a sexualidade feminina e mostrando um pouco como é esse descobrimento da mulher nessa época. Rendendo até uma cena incrível em que a mesma conversa com a sua própria vagina e que por mais que renda muitas risadas, é uma verdadeira aula de biologia para muitos.

Além disso, pode gerar outras identificações como algumas atitudes que já possam ter acontecido com os mesmos, mas nenhuma produção audiovisual tinha colocado até agora. Como o medo do pênis não ter se desenvolvido como o do amiguinho e com quem falar sobre isso? Pois, ou os pais evitam falar disso ou forçam a barra em tentar ser amigos dos filhos, não achando essa linha tênue e criando, consequentemente,  mais barreiras e dúvidas prejudicais na sua sexualidade, criando futuros adultos inseguros.

Big Mouth está longe de ser uma animação perfeita, mas cumpre muito o seu papel de mostrar que o melhor disso tudo é conhecer o próprio corpo, se cuidar e respeitar o próximo, mas também usufruir muito da sexualidade que vai surgindo nessa nova fase, dando total sentido para aquela frase clichê de embalagem de caixa de leite: ser diferente é normal. Para a nossa alegria, são episódios curtos, com uma temporada mais curta ainda, já deixando saudades e batendo aquela ansiedade em descobrir o que vai acontecer com aquelas mentes confusas.

Como diz a música de abertura (Versão da canção Changes, original da banda Black Sabbath e aqui cantada pelo incrível e recém falecido Charles Bradley): “I’m going through changes”. E quem não está?

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